A idade e a liberdade

A idade e a liberdade
agosto 21 20:52 2011 Imprimir este Artigo
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Cristiane Felipe*

Pilar das revoluções que transformaram o mundo a partir do século XVII, a liberdade é um dos bens mais preciosos de que dispomos. O poder de ir, vir, agir e pensar é pressuposto básico para a manifestação da nossa essência. Não é por acaso que em qualquer sociedade, desde os mais remotos tempos, a forma mais usual de punição àqueles que comentem algum delito é a prisão. Mas, e quando a doença ou as perdas naturais do processo de envelhecimento nos priva da liberdade?

Nas implicações naturais decorrentes do processo de envelhecimento estão previstas perdas gradativas de muitas de nossas principais capacidades. E isso é perceptível ainda muito cedo. Uma ginasta olímpica na faixa dos vinte e poucos já não realiza com a mesma destreza e desenvoltura os movimentos que praticava na adolescência. Um jogador de futebol, ao ultrapassar os 35 anos, já se prepara para a aposentadoria. A visão de um sexagenário já não tem a mesma definição dos primeiros anos da juventude.

Consciente do que lhe é efêmero, o homem busca incansavelmente meios de prolongar a sua vida útil. Já sabemos que os progressos alcançados no campo da Medicina – em especial na área da Geriatria e Gerontologia – permitem a prevenção e a detecção precoce de inúmeras moléstias típicas da idade avançada. Novas terapias, técnicas cirúrgicas e medicamentos com maior precisão de cura também contribuem para esse avanço.

No entanto, mais do que o tratamento adequado, o que pressupõe o envelhecimento saudável é a manutenção das independências física, social e econômica. São esses os pré-requisitos que possibilitarão a preservação da liberdade do indivíduo na idade avançada. E, assim como faz o tempo, a maneira mais sábia para se adquirir ou preservar a autonomia é por meio da prática sistemática, dia após dia. Atividade física faz bem em qualquer fase da vida, alimentação adequada também. A prática da meditação e o cuidado com a espiritualidade (independentemente de religião) não possuem contra-indicações. No nível profissional, o caminho é encontrar o equilíbrio entre a satisfação pessoal e financeira. E se a esse conjunto de práticas somar-se uma pitada de alegria, está dada a receita.

Mas todos sabemos que esta receita não tem nada de simples. A vida não tem regras claras. O convívio com as perdas pode levar à depressão e ao desânimo. As novas situações geram ansiedade, perda da auto-estima e uma série de outros complicadores. Nesses momentos, a saída é não se isolar, não se esquecer de que inúmeras pessoas estão vivenciando a mesma situação. Um caminho possível é partir ao encontro delas. Um bate-papo em grupo pode resgatar a confiança perdida. Um baile no fim-de-semana pode mudar a vida de alguém. Porque a vida pode ser reinventada a cada minuto. É só dar asas à liberdade (e, de preferência, compatibilizá-la com a alegria). Como ensina Montaigne, “a verdadeira liberdade é poder tudo sobre si”. E como canta Gilberto Gil (um sessentão pra lá de jovem), “a alegria é a prova dos nove”.

* Cristiane Felipe, psicóloga com especialização em Gerontologia pela Unifesp, é coordenadora do Age – Vida Ativa na Maturidade

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