A Copa do medo

A Copa do medo
julho 09 12:18 2014 Imprimir este Artigo
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Luiz Holanda

No dia 30 de outubro de 2007, o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014. A escolha se deu em Zurique, Suíça, na presença eufórica de uma delegação composta pelo presidente da República, 13 governadores, ministros, políticos e futebolistas, além do escritor Paulo Coelho, no papel de embaixador das letras. O uso de algum intelectual nesse tipo de evento não é coisa nova. Durante o regime militar, o escritor Nelson Rodrigues, cronista esportivo de “O Globo”, foi usado para fazer propaganda do governo. Ficou encantado com as gentilezas do general-presidente Emílio Médici, quando assistiu, junto dele, o jogo entre o São Paulo e o Porto, de Portugal, marcando o aniversário de dez anos de inauguração do Estádio do Morumbi.

Meses depois, seu filho, Nelson Rodrigues Filho, o “Prancha”, foi preso e torturado pela ditadura como terrorista e integrante do movimento contrarrevolucionário MR-8. Em seu currículo constava, segundo reportagem da época, assaltos a supermercados, a bancos, a um depósito de bebidas e a um carro forte. No assalto ao carro forte teria morrido um militar da reserva e ferido três agentes policiais. Médici, em uma de suas conversas com o escritor, garantiu-lhe não haver tortura no Brasil. Nessa época conquistamos o tricampeonato de futebol, em junho de 1970.

A presidente Dilma, talvez, não tenha a mesma sorte. A Copa vai ocorrer, justamente, num ano eleitoral, no qual o governo, para se manter no poder, gasta o que tem e o que não tem. Os meios de arrecadação são vários, mais o principal vem das contribuições das empresas privadas e das estatais, principalmente da Petrobrás, que se tornou um Estado dentro do Estado. Essa empresa financia todo tipo de atividade circense, além de contratar milhares de companheiros desempregados e assessores dos políticos da base aliada. Essa Copa, que está sendo exaltada como o evento que possibilitará o país arrecadar milhões dólares, pode se tornar num tremendo fracasso econômico. As obras de infraestrutura, por exemplo, até hoje não saíram do papel e a modernização dos estádios e dos aeroportos, feita às pressas, está consumindo bilhões dos cofres públicos, principalmente para pagar os superfaturamentos decorrentes da corrupção.

A renomada revista FRANCE FOOTBALL , uma das melhores do mundo na matéria, publicou, em uma de suas edições, reportagens sobre nossa Copa , considerada por ela como “ O mundial do medo”. O título em francês da reportagem é PEUR SUR LE MONDIAL, sendo que na letra O da palavra “mondial” está a bandeira do Brasil, e onde deveria estar escrito “Ordem e Progresso”, foi colocado uma tarja preta. Segundo a revista, estamos longe de ser o país ideal para a realização desse evento, além de mergulhados numa imensa crise econômica, política e moral.

Considerado um país que se movimenta pela corrupção do povo e do governo, a reportagem nos trata como um Estado burocrático, onde tudo precisa ser carimbado, gerando milhões para os cartórios, e onde tudo se movimenta na base da propina. No texto, os repórteres que escreveram a matéria falam da corrupção do governo Lula e do PT, além de nos desmoralizar utilizando, como exemplo, o deputado mais votado do Brasil, que, segundo ela, é um palhaço e que, em uma de suas músicas, diz que “Ele é ladrão mas é meu amigo”, e que isso bem demonstra o espírito do povo brasileiro..

Não bastasse essa desmoralizante ironia, a revista afirma que as despesas com a Copa são astronômicas, e que mais de 400 milhões de Euros foram gastos com a compra de armas para a polícia, além da utilização do exército para impedir qualquer manifestação do povo durante o evento. O Brasil é, hoje, um país onde há mais assassinatos que na Palestina, Afeganistão, Síria, Iraque e Sudão juntos. Segundo a imprensa, só no ano passado 63.000 pessoas perderam a vida vítimas da violência, garantida pela impunidade. Esse número bem demonstra que nossa Copa será, com toda certeza, o mundial do medo.

 

Luiz Holanda é advogado, professor universitário e conselheiro do Tribunal de ética da OAB/BA

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