GOD

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maio 12 08:55 2015 Imprimir este Artigo
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Luiz Holanda
Somente no Brasil acontece uma associação entre um ex-ministro da Justiça e um investigado pela polícia por envolvimento no crime organizado e corrupção. Alegando que se sentia desafiado e que não tinha qualquer impedimento ético ou psicológico em defender o “empresário” Carlinho Cachoeira, o advogado Márcio Thomaz Bastos cobrou 15 milhões de reais pelos seus serviços profissionais, segundo a imprensa.
Ao aceitar defender Cachoeira, Bastos teve de sentar-se ao seu lado na sessão da CPI que investigou o suposto esquema de lavagem de dinheiro praticado pelo seu cliente e aliados, orientando-o a manter-se calado a fim de inviabilizá-la. Tempos depois, sem qualquer explicação, renunciou à defesa, avisando que não devolveria os honorários pagos.
Defensor do golpe militar de 64, ex-vereador de província, ministro da Justiça de Lula e advogado de gente como Edir Macedo, Roger Abdelmassih, Eike Batista e outros moradores do “andar de cima”, Márcio Thomaz Bastos, falecido no ano passado, era considerado um Deus entre os colegas de banca, que o chamavam, carinhosamente, de GOD.
Estrategista e especialista no trato com o Poder tentou e conseguiu, pelo menos parcialmente, absolver os réus do mensalão, cuja tese de defesa, criada por ele, foi que o dinheiro recebido pelos seus clientes era para pagar despesas de campanhas eleitorais, o famoso Caixa dois. Além de indicar os advogados de defesa de alguns mensaleiros, ele próprio patrocinou a defesa de um deles: o ex-diretor do Banco Rural José Roberto Salgado.
A participação de GOD nas decisões do poder e nos grandes processos de corrupção – antes e os ainda em curso-, não para por aí. Ele foi padrinho de cinco dos onze ministros que julgaram o mensalão, nomeados na época em que ocupou o cargo de ministro da Justiça do então presidente Lula. Mesmo assim, compareceu no STF meio constrangido, chamando a atenção dos ministros para não esperarem dele uma “defesa sintética, uma defesa brilhante”. Ele acreditava tanto na fragilidade de sua defesa que preferiu encerrá-la “para o bem de todos”.
Mesmo assim, só não ganhou totalmente o processo porque a Corte, naquela ocasião, não podia garantir, em sua totalidade, a impunidade dos acusados. Além disso, a defesa promovida pelos advogados dos mensaleiros e por ele próprio nada mais era do que um amontoado de teses rebuscadas e vazias.
Essas mesmas teses estão sendo usadas na defesa dos empreiteiros para boicotar a Operação Lava Jato. O encontro entre os advogados desses empreiteiros e o ministro da Justiça petista, Eduardo Cardozo, parece que vai dar frutos. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, já deu sinais de que isso pode acontecer, principalmente em relação a alguns dos personagens, cujos nomes constam de uma lista em seu poder.
Vamos aguardar a tão ansiada e adiada lista com os nomes dos parlamentares e governadores citados no esquema de corrupção na Petrobrás. Se ela for completa – o que se duvida muito-, contribuirá para que possamos recuperar um pouco a justiça que de há muito perdemos. Caso contrário, se for apenas para burlar a lei, como ocorre quando o Supremo absolve os criminosos de colarinho branco, estaremos criando um perigoso precedente para novos e maiores crimes.
GOD sabia navegar nas águas revoltas da política sem jamais afundar. Conhecia como poucos as máximas balzaquianas sobre a advocacia, entre as quais a que diz que “Todo processo é julgado pelos advogados antes de sê-lo pelos juízes, assim como a morte do doente é pressentida pelos médicos antes da luta que eles sustentarão com a natureza; e aqueles com a Justiça”. Daí a sapiência de GOD em julgar os seus próprios processos antes dos juízes.
Sua morte foi sentida pelo mundo político, jurídico e pelos que foram por ele defendidos, mas como era inteligente e certamente leitor de Shakespeare, sabia que a morte é uma baixa apressada para o ocaso, para o qual se cai como um meteoro, que ninguém mais enxerga. Que Deus o tenha, GOD.

Luiz Holanda é advogado, articulista da Tribuna da Bahia, professor de Ética e de Direito Constitucional da UCSAL e Conselheiro do Tribunal de Ética da OAB/BA.

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