O Brasil para principiantes

O Brasil para principiantes
agosto 29 09:00 2017 Imprimir este Artigo
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Carlos Sodré Lanna (*)

 

Nosso País é a terra do “Deus é brasileiro”, do “em se plantando dá”, do “amanhã se não chover”, onde um misto de sabedoria da vida e esperteza nos ensina desde cedo o segredo para se “quebrar o galho”, e para “dar um jeitinho”.

É igualmente cenário de contrastes violentos e por vezes até pitorescos. Apesar de tudo somos um povo de boa índole, unido e compreensivo. Tudo isso é mais do que sabido, e vivido pelos brasileiros natos.

Mas o que dizer aos estrangeiros que vêm para cá fixar residência?

Para se adaptarem ao nosso estilo de vida, único em todo o mundo, são grandes e surpreendentes os contratempos que têm enfrentado.

Tempos atrás, um húngaro de nascimento, Peter Kellemen, mudou-se para o Brasil, cuja cidadania adotou. Suas observações, experiências e aventuras descreveu-as num livro: Brasil para principiantes (Editora Civilização Brasileira, Rio, 1961).

Citarei aqui alguns trechos interessantes do mesmo:

“Não se esqueça, meu jovem amigo, de que é preciso se ambientar durante o primeiro ano. Aprenda a julgar os gestos, as meias palavras, os olhares, as insinuações, pois o brasileiro jamais dirá a palavra não” (p. 16).

“No Brasil, desde a infância, as pessoas se acostumam a compreender certos contrastes. Por exemplo, o automóvel contrabandeado só vai a leilão depois de enferrujado e totalmente inutilizado, ao invés de na época, quando está valendo milhões. Edifícios públicos com obras paralisadas em meio à construção, por falta de verba, enquanto outros edifícios públicos recebem o dinheiro necessário para poder iniciar a fundação. Verá moleques sem sapatos, mal alimentados, mas com rádio portátil na mão. Ao lado de moderníssimos supermercados e gigantescas lojas de departamento, verá feiras-livres e vendedores ambulantes. Homens visivelmente pobres, de tamanco, possuindo milhões e outros, gastando milhões, sem possuir um par de tamancos. Aprenderá que as placas: Estacionamento proibido, Não fume ou Entrada Proibida -são apenas adornos coloridos para enfeitar a cidade” (p.141).

“Saiba que o Brasil não tem estradas como as da Alemanha, nem a riqueza dos americanos … Mas o que importa? Se você não compreender que o povo brasileiro é diferente e, tem um caráter humano não dominado por leis ou parágrafos, nunca o entenderá.

“Quero ainda confessar uma coisa: todo estrangeiro não quer parecer estrangeiro. Isto é uma coisa difícil de realizar, pois além da aparência, que mostra logo a sua origem estrangeira, basta o sujeito abrir a boca e todo o mundo percebe que se trata de alguém de outra nacionalidade.

“O caráter desse país (se é que uma Nação possa ter caráter) é cheio de contrastes, beleza, sinceridade, um pouco de infantilidade, mistério, insubmisso, de personalidade marcante. Não tente modificá-lo. É impossível e desnecessário. Ao contrário, aprenda a gostar de seus contrastes e assim você será mais sábio e muito mais feliz” (p. 142).

Em suas descrições sobre as coisas do Brasil, Kellemen fala da viagem de avião, a chegada na alfândega, estadia em um hotel, meios de transporte nas cidades, um país de milhões de médicos, economia, indústria, comércio, política e da laboriosa classe dos estrangeiros.

No entanto, convém dizer que o livro apresenta uma visão unilateral do brasileiro, considerado de modo exagerado e caricato, generalizando os defeitos do “jeitinho”, como malandragem, relativismo, os quais são encarados de modo simpático, como algo quase folclórico.

O “jeitinho” brasileiro – como a palavra “saudade” não tem tradução para nenhum outro idioma –– tem muito de inteligência e sagacidade, mas a ela se acrescentou uma camada de defeitos.

Apoiar na totalidade a visão que autor formou do Brasil e dos brasileiro: seria ver nossa Pátria como uma terra de espertezas e pequenos expedientes, portanto negar a vocação e a missão providenciais do País. Embora se deva reconhecer que ele apanhou bem certos aspectos, como flexibilidade de espírito em contraposição à rigidez e ao “espírito geométrico” que caracterizam outros povos.

Não resta dúvida de que o tão decantado “jeitinho” é um valor do Brasil:

Mas ele será um mero expediente prático se não estiver a serviço de um povo que sabe voar nos grandes horizontes do pensamento, da ação e dos planos Deus a serem aqui realizados.

* Carlos Sodré Lanna é colaborador da Abim.

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