O circo

O circo
junho 12 08:53 2012 Imprimir este Artigo
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Luiz Holanda

A CPI inventada por Lula para tentar abafar o julgamento do mensalão está servindo para que os advogados dos réus apelem para a mais antiga tática das fugas, ou seja, o silêncio. Até agora esses profissionais não fizeram qualquer defesa de seus clientes. A única ordem dada é para que eles nada digam, como se isso valesse quinze milhões de reais. A sucessão de acontecimentos fúteis ocorridos até o presente momento , assim como as decisões tomadas para atender os desígnios petistas, pelo menos acabaram servindo para esclarecer que o ex-presidente, nesses últimos dois meses, manteve contato com cinco ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Também demonstra que o circo da CPI foi planejado para esconder o lamaçal que envolve políticos, empresários, ministros e membros do Poder Judiciário com o esquema de corrupção comandado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira. Se a comissão tivesse sido criada apenas para investigar a oposição – como queria o Lula-, talvez não tivesse chegado ao ponto em que chegou, podendo, inclusive, atingir o planalto, cujas relações com a construtora Delta são mais do que íntimas. Daí a preocupação do ex-presidente, que se diz mentor e dirigente dos trabalhos da CPI. O controle que ele alega ter da comissão o levou ao entrevero com o ministro Gilmar Mendes.
Ao convidar o ministro para um encontro no escritório de Nelson Jobim, Lula imaginava enquadrar o convidado, visando o adiamento do julgamento do mensalão. O episódio divulgado pela imprensa é, em si, grotesco e grave, e poderia terminar numa condenação de Lula pela pressão usada contra um dos poderes da República, se não fosse a atabalhoada divulgação feita pelo próprio chantageado, acompanhada de excessos verbais, atitudes raivosas e aparente falta de equilíbrio. Ao definir a mais alta corte de justiça como “um poder em caráter descendente”, Mendes extrapolou de todo o comedimento exigido de um magistrado para municiar seu adversário com declarações contraditórias e de múltiplas versões.

O convite feito por Lula para uma suposta conversa com o ministro sobre o mensalão foi criticado pela alta cúpula petista. Tal fato acabou por desestabilizar emocionalmente alguns dos principais líderes do partido, que criticam, internamente, o destempero do seu líder sobre os mais diversos assuntos do governo, passando, muitas vezes, por cima de sua própria criatura, ou seja, da presidente Dilma Roussef. Já era público e notório que os integrantes da CPI do Cachoeira nela figuram com a intenção de tumultuar o julgamento do mensalão. Para tanto, a estratégia é atacar alvos alheios ao esquema do bicheiro. Basta ser oposicionista ou membro do Judiciário para merecer a atenção dos petistas integrantes da comissão, que deverão seguir à risca as instruções contidas no roteiro de alvos preferenciais do partido, entre eles os ministros do STF, supostamente favoráveis à condenação dos mensaleiros.

Outro atingido foi o poeta Ayres de Brito, que também revelou uma conversa de Lula que, segundo ele, parecia não ter sentido, mas que, depois da revelação de Mendes, passou a ter conexão com os fatos agora revelados. Tempos depois, o poeta se calou. Os motivos que levaram Lula a procurar o ministro certamente não foram o de um simples bate papo, já que os dois, pelo histórico de cada um, não são íntimos nem amigos. De igual modo, o “encontro casual” relatado por Jobim denigre também sua imagem, que não é tão boa diante dos amigos petistas. O mais engraçado é que essa “casualidade” deu-se com um Lula que adora reportagem, pois até um fotógrafo particular o acompanha a tiracolo para qualquer lugar onde é chamado ou comparece, mesmo sem ser convidado. Como a credibilidade de nosso país não é criticada somente entre nós, não se pode esquecer que o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, afirmou para o procurador-geral americano, Eric Holder, que a corrupção no Brasil atinge os Três Poderes da República, e que nosso Judiciário, além de despreparado, é disfuncional. Não é sem razão, pois, a necessidade de se encobrir esse lamaçal através de ameaças, chantagens e outros meios inidôneos e de baixo nível, protagonizados por duas figuras supostamente importantes deste país. O comportamento desses dois personagens degradam as instituições e corrompem os fundamentos da ordem e da justiça.

Publicado n Tribuna da Bahia em 05/06/2012. Luiz Holanda é professor de Ética e de Direito Constitucional da Faculdade de Direito da UCSAL.

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