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A traição invade a ficção

Por Vitor Sampaio

O tema traição está em alta. Com as confusões armadas pelo personagem de Alexandre Borges na novela Avenida Brasil, na TV Globo, muitos se perguntam o que leva alguém a manter duas famílias e ainda uma amante.

Mas para falarmos de traição, precisamos antes fazer a seguinte pergunta: o que é trair? A traição não é uma questão meramente sexual. Trair é mais do que arrumar outro parceiro sexual. A traição está ligada à confiança: um acordo que temos e foi quebrado, desrespeitado. É o rompimento de um contrato cujos termos remetiam à cumplicidade do casal.

Os termos deste contrato estão estabelecidos, justamente, na cumplicidade do casal. Como passam seus dias, sobre o que conversam, quais os seus gostos, o que um quer, o que outro deseja, como um respeita o outro.

A partir disto, percebemos que cada relacionamento tem a sua dinâmica, a sua complexidade, e que, portanto, um raio-x sobre o casal se faz necessário – como um processo terapêutico, por exemplo – para revelar quais foram realmente os motivos para uma traição, que podem ser inúmeros.

De forma geral, podemos descrever alguns deles, como a insatisfação com o parceiro (sexualmente ou mesmo no tratamento diário, no respeito e acolhimento que recebe), a busca por novidades fora de casa, a incerteza sobre os sentimentos pelo parceiro (busca-se encontrar alguém para colocar em teste o amor que se sente, saber se aquela é mesmo a pessoa certa) ou até mesmo a insegurança que o parceiro sente (alguém que busca provar a si mesmo que ainda é capaz de conquistar e que não está aprisionado ao outro).

Por estes motivos podemos dizer certamente que pessoas satisfeitas com seus relacionamentos, por exemplo, também traem, pois a traição não está ligada somente à insatisfação, mas a outras razões, como o alívio da mesmice, do dia a dia.

Os motivos da traição têm ligação íntima com a maneira de trair, ou seja, com a diferença da traição de uma noite para o estabelecimento de um amante. Se a traição de uma noite já implica em ter um segredo, ou seja, na solidão de um segredo impossível de ser compartilhado com o parceiro, manter uma vida paralela é estar constantemente nesta solidão, carregando algo exclusivo e que deve ser sempre escondido do parceiro. Esta solidão, esta vivência exclusiva, pode ser por si só o motivo da traição, por exemplo.

O mito da guerra dos sexos é sempre levantado quando se fala em traição e nos motivos de se trair. Em uma sociedade patriarcal, onde a mulher vivia em casa e sem dinheiro, o homem certamente tinha oportunidades mais óbvias e corriqueiras que lhe permitiam a traição. Hoje em dia, no entanto, esta situação mudou. Traição não é questão de gênero, mas de como cada pessoa se relaciona com seu parceiro e consigo.

Logo, a diferença entre o jeito de trair do homem e da mulher está ligada à própria diferença entre o homem e a mulher de forma global. Generalizações levam sempre a preconceitos e formulações erradas. Há homens sensíveis e mulheres secas; há homens que traem, pois buscam o romance que não estão tendo no casamento e há mulheres que traem porque querem apenas uma noite de sexo.

Com uma traição consumada e descoberta, surge outra questão, o perdão. Para perdoar é preciso ter de fato a traição, ou seja, duas pessoas engajadas e entregues naquela confiança que foi quebrada. Quem traiu precisa assumir seus atos, querendo entender porque traiu e querendo agir diferente, em prol da relação. Também é preciso que quem foi traído queira entender a traição junto com o parceiro, se implicando na relação e visando o futuro em comum, amparado no amor que os dois construíram.

Desta forma, a construção de um relacionamento saudável depois de uma traição é possível, mas depende de alguns fatores cruciais. Um deles é que ambos tenham no amor um sentimento maior do que a raiva da traição. Outro fator é não deixar que a vida íntima seja exposta e aberta aos palpites e julgamentos de terceiros. A opinião dos outros pode arruinar as chances do casal seguir sua própria vontade, com medo de serem julgados em um eventual retorno à relação.

Por fim, é importante levar em consideração o quão saudável era, ou não, a relação antes da traição. Muitas vezes a traição é um sintoma de um relacionamento que vai mal, é um alerta que mostra que, de fato, tudo anda ruim entre o casal. Se for este o caso, a pergunta a ser feita não é se é possível superar a traição, mas se vale a pena tentar permanecer na relação. Quanto à novela, só nos resta aguardar por seu desfecho.

Vitor Sampaio é psicólogo, pós-graduado em psicologia clínica e mestrando da linha de Fenomenologia-Existencial.

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