“Mãe, eu sou adotado?”

“Mãe, eu sou adotado?”
junho 29 16:05 2014 Imprimir este Artigo
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É comum ver as crianças perguntando para mãe se são adotadas ou se seu irmão é adotado. Isso normalmente acontece por brincadeira, mas e se o assunto for sério? Saiba qual é o melhor momento e como contar para o seu filho sobre a adoção.

Adotar uma criança é uma decisão que deve ser pensada e planejada. Esse novo membro da família vai levar amor, felicidade e algumas questões aos novos papais – e a primeira delas será a de como e quanto contar sobre a adoção. “Quanto mais cedo a criança tiver acesso a verdade, mais chances terá de reelaborar e dar novos significados ao que viveu”, esclarece a psicóloga clínica Ana Cássia Maturano. “Não podemos colocar uma criança adotada no meio do “não dito”, aquilo que todos sabem, mas ninguém fala. Esse tipo de conduta só tende a piorar uma história que já não começou bem no passado. A criança adotada tem o direito de saber a verdade, a sua real identidade, aquilo que a constitui como sujeito, para que possa aos poucos reeditar a sua história.”

A melhor maneira de contar para criança que ela é adotada é mostrando que ela é amada e que, assim como nos contos de fadas, a vida real também possibilita em uma história triste, um final feliz. “Se tratando de uma criança pequena, os pais podem, por exemplo, utilizar metáforas para que juntos possam construir o seu próprio livro, a sua própria história. O importante para uma criança, seja ela adotada ou não, é ter uma figura de ligação a qual possa se identificar, sentir-se amada, desejada e segura. O sentimento de pertencimento e de segurança é a base para que toda história possa ser reelaborada e também tenha a chance de ter um final feliz”, sugere a psicóloga e psicopedagoga Cynthia Wood.

Mesmo que os pais não tenham contado na infância, o adolescente também tem o direito de saber a verdade sobre sua história, esclarece a psicopedagoga Elizabete Duarte, coordenadora pedagógica do colégio Nossa Senhora do Morumbi. “A diferença é que quanto mais cedo, mais chances temos de reeditar um acontecimento marcante”, diz a especialista. “Contar a um adolescente que é adotado não é tão simples assim, pois este cresceu acreditando fazer parte de uma história que não era verdadeira. Não podemos passar uma borracha no passado de ninguém, mas podemos dar a chance a criança ou ao adolescente adotado de reescrever as suas próprias linhas à partir de uma verdade.”

Muitos pais sentem medo de contar aos filhos a verdade, mas eles devem perceber que isso é o melhor para ambos. “Os pais adotivos também temem pelo abandono no que diz respeito a não serem aceitos, pois muitos possuem a fantasia de estarem sempre em competição com os pais biológicos e que podem ser trocados a qualquer momento caso estes apareçam”, diz Ana Cássia. “Esse tipo de sentimento causa medo. Assim como a criança adotada que começa uma nova história de vida em um lar adotivo, os pais também dão início a um novo capítulo em suas vidas, pois recebem uma criança já pronta e que assim como eles, deseja ser amada. A medida que uma relação sadia vai sendo construída, este medo tende a se diluir.”

É fundamental que a criança saiba que é adotada. “Ao nascer precisamos do outro para que possamos nos integrar como sujeitos e assim poder constituir a base do psiquismo. Com a criança adotada, acontece uma ruptura muito forte em um momento crucial do desenvolvimento psíquico, e muitas marcas são gravadas, impossíveis de serem apagadas”, afirma Cynthia Wood. “Quando a criança desde cedo tem acesso a verdade, tem a possibilidade de poder reeditar estas marcas e dar novos significados a esta ruptura, por isso é tão importante que a criança adotada saiba sobre a sua história de vida.”

“Se os pais adotivos não se sentirem seguros para conversar com a criança sobre a adoção, devem sim procurar ajuda de um profissional, pois sentimentos de insegurança e ansiedade podem tumultuar ainda mais um momento tão delicado. Mas, contar a verdade é imprescindível. A leveza proporcionada por tirar o peso de um segredo das costas, dá lugar a construção de uma relação pautada em sentimentos de respeito e confiança”, sugere a a psicopedagoga Elizabete Duarte, do colégio Nossa Senhora do Morumbi.

Omitir a verdade para o filho adotivo pode trazer conseqüências. “Não contar a uma pessoa que ela é adotada é tirar-lhe o direito de ter acesso a sua verdadeira identidade, a sua verdadeira história de vida”, diz Ana Cássia Maturano. “Não apagamos o passado de alguém, muito menos as marcas causadas pelo que foi vivido e internalizado. O “não saber” aquilo que todos sabem é o mesmo que viver junto a um vazio. É como tentar escrever uma história e não encontrar a palavra que dê sentido e significado ao texto. Saber que se é adotado e que um dia foi acolhido, possibilita ao sujeito tentar preencher um vazio que se instalou no momento em que houve uma ruptura, culminando com a adoção.”

Segundo a especialista, uma boa relação entre pais e filhos adotados deve ser permeada pelo respeito a história de vida da criança, seu contexto e suas origens. Independente se os filhos são adotados ou não, crescer rodeado por um diálogo verdadeiro serve de base para a construção de um relacionamento saudável, onde as estruturas são solidificadas pelo amor, respeito e confiança.]

Os pais não devem ter medo, mas sim, ter a certeza que contar a verdade e dar amor a essa criança é o melhor que eles podem fazer.

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