Todas as instituições são corruptas na origem. Nascem corruptos por força do papel conservador que exercem na sociedade

maio 09 15:43 2009 Imprimir este Artigo
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 Alguns conhecidos meus, no Brasil (dá para contar nos dedos), já entenderam o que é corrupção. Mas fica nisso. A maioria esmagadora, que pode incluir você, leitor, ainda não. Nem mesmo nossos mais renomados intelectuais, de Millôr a Jabor, decifraram esse enigma e estão mais por fora do que asa de PTrodátilo, em voo rasante na era dos dinos. Nossa mídia nem se fala. Revistas como Veja, redes como a Globo e jornais como Estadão, Folha e O Globo são tão rasos e pseudocientíficos no assunto, que até constrangem. Iniciemos com uma verdade absoluta, e é bom que você não pense como Ethevaldo Siqueira nem como Daniel Piza, colunistas do Estadão, e acredite que existem verdades absolutas. Está cheio delas por aí. Você existir é uma, não ter compreendido ainda o que é corrupção pode ser outra. Vamos lá, aceite o desafio.

Todas as instituições, como o Estado, a política, a polícia, o Direito, até mesmo a família, o casamento e a religião, são corruptas por definição. Todos que estão hoje no poder, do cargo público mais insignificante ao de presidente da república, são corruptos na origem. Nascem corruptos por força do papel conservador que exercem na sociedade. Os jornalistas, salvo raras exceções, também são corruptos na origem. E isto é fácil de explicar, embora exija um pouco de atenção e reflexão.

Vivemos hoje, fatalidade das fatalidades, na sociedade de classes de talhe capitalista, com muitas facetas, cada uma com suas peculiaridades e especificidades. Inegavelmente, a sociedade regida pelo capital é responsável por esse enorme progresso que aí está e que superou, de longe, os avanços que todas as sociedades anteriores alcançaram. Mas a vida sob o capital está nos trazendo também muita destruição e pode, se nada for feito já, acabar em pouco tempo com a vida no planeta, como estamos vendo acontecer.

E você não tem escapatória: ou pertence à classe dos empregadores (patrões) ou dos empregados (trabalhadores). Pode ser também, ao mesmo tempo, empregador e empregado, mas isso quase não conta. Ah, e há também os desempregados, ora porque são muito jovens, ora porque estão sem trabalho, como muitos de meus amigos. Um parêntese. É bom saber, os desempregados também desempenham papel fundamental na vida capitalista, pois aí estão para permitir que os empregadores mantenham os salários achatados, sem o que não teríamos mais lucros nem mesmo capitalismo.

Claro, se o patrão conta com vários desempregados à disposição aí na rua, pode facilmente mandar embora aquele que se atrever a lhe pedir aumento, pois haverá milhares deles esperando por uma chance lá fora e aceitarão trabalhar por menos. Daí que a mera ação do capital gera um número razoável de desempregados e, ao mesmo tempo, se alimenta dele para não perecer e conservar o processo de acumulação.

Assim —- anote isto —-, não existe excluído, o desempregado sempre cumpre esse papel, decisivo para o capital, de manter os salários em níveis toleráveis, para que a engrenagem da vida capitalista mantenha-se azeitada e possa seguir sua marcha.

Pasme: está no DNA da relação patrão-empregado o roubo diário de trabalho e, portanto, a corrupção, no primeiro sentido que o dicionário Houaiss dá à palavra: “Deterioração, decomposição física e orgânica, putrefação de algo.” No caso, corrupto e corruptor é, sem o saber, o empregador, e corrompido é o trabalhador.

Muitos, inclusive nossos intelectuais mais brilhantes, não sabem disso nem que a relação patrão-empregado, hoje dominante no planeta e que consiste em muitos trabalharem para poucos, é marcada por essa violência e violação que é o indivíduo ter trabalho roubado diariamente e receber em troca um salário no final do mês.

Eis decifrado o grande enigma da sociedade moderna, embora poucos tenham conhecimento dele: todo trabalhador, como regra, dá muuuuito mais de si, em serviços e riquezas que produz a seu empregador, do que este lhe retribui. Ou seja, todo trabalhador, inclusive renomados intelectuais hoje empregados, de Arnaldo Jabor a Millôr Fernandes, tem trabalho roubado. Portanto, está corrompido, sem o saber.

Aquele trabalho que exercíamos na sociedade primitiva para garantir nossa sobrevivência passou a ser, na sociedade de classes, mais ainda na de talhe capitalista, algo rotineiro, chato, monótono e obrigatório, que passamos a despender todos os dias para que outro tire partido de seus resultados, em troca de salário.

A maioria desconhece que salário é truque barato porque nunca remunera devidamente. Não sabe que o trabalhador foi corrompido —- deteriorado, decomposto física e organicamente, putrefeito —- no exato momento em que se propôs a trabalhar para outro, pois passou a ter carga de força de trabalho expropriada todos os dias, para reforçar o caixa da empresa e garantir que seus patrões tenham lucros. Trabalhar para que outro usufrua, em troca da migalha que é geralmente o salário, por maior que este seja, é opressão, é violência, é violação.

O pior não é isso. É que é desse roubo de trabalho, hoje a base de nossa estrutura social, que se originam todos os dados de realidade que aí estão, especialmente os males que nos assombram e nos derrubam. Deus existe, sim, no sentido de que existe um criador, e esse criador é, nos dias de hoje, a estrutura social dominante pela qual a humanidade enveredou e na qual está assentada.

A estrutura social é a mãe e o pai da realidade em que vivemos, é sua criadora. É a fonte de origem de tudo o que é humano e que surge e se reproduz hoje, desde nossas instituições até as doenças que nos abatem, do câncer à depressão. A maioria desconhece isso, e não temos como mudar esse estado de coisas, por ignorância, incapacidade, impossibilidade e impotência.

Raul Seixas entendeu muito bem isso quando disse que “falta cultura para cuspir na estrutura”. Somos todos alienados (reificados) que desconhecemos essa realidade que se deixou marcar pela violência. Daí sermos incapazes de mudá-la com consciência, guiados pela razão e pela ciência.

Os grandes homens, sem exceção, lutaram para combater isso, mesmo tendo consciência ou não do problema. Muito mais por intuição, até. São o que eu chamo de demolidores, tanto os que erraram quanto os que acertaram nos métodos utilizados para demolir a estrutura social. Jim Morrison dizia com razão que quem não é demolidor, hoje, é um bosta. Como todas as instituições são, por natureza, conservadoras da estrutura, principalmente a mídia, não passam dessa bosta que você vê todos os dias. E, se você não é um demolidor, é um bosta.

E não adianta sair por aí quixotescamente, metralhadora em punho, tentando demolir a estrutura, como fazem a guerrilha e o terrorismo. Além de inócuo e ineficaz, esse tipo de ação só leva, hoje, à sofisticação de todo aparato policial e militar do qual se vale a estrutura social para se defender e se proteger.

Também não dá para substituir a atual estrutura por outra idealizada por filósofo, pensador ou profeta. Capitalismo, socialismo e comunismo não são modelos nem regimes, doutrinas ou fórmulas aplicáveis à sociabilidade. São meras formas de trabalho e produção pelas quais a humanidade pode enveredar ou não e que foram criadas pelo homem muito mais por obra do acaso do que da reflexão e imaginação. É no mínimo ingênuo idealizar um novo tipo de sociedade e tentar implantá-lo. É tão raso quanto tentar encontrar uma fórmula para deter o movimento dos corpos celestes.

Assim, a demolição da sociedade deve ocorrer a partir do que é concretamente possível, na nossa prática do dia-a-dia, na arte dos livros, do cinema etc., na ciência e na consciência. Ou seja, na contribuição que damos todos diariamente para esclarecer, fazer prevalecer a razão como único guia viável e melhorar a realidade objetiva. É uma luta gradual, dialética, para iluminar o caminho, a partir da razão. Um parto doloroso.

Voltando à corrupção, todo patrão é corrupto na medida em que corrompe seus trabalhadores, usurpando trabalho sem ter a menor consciência disso. E todo trabalhador está corrompido porque se deixou corromper assim pelo seu patrão, também sem ter consciência disso.

Ora, o Estado, a política, a polícia, o Direito com suas leis e as demais instituições aí estão para proteger, como guardiões, essa situação que se notabiliza pelo roubo de trabalho. Ou melhor, aí estão para proteger e conservar a corrupção aqui apontada e que já podemos chamar, sem medo de errar, de corrupção-mãe.

As instituições são, assim, do Estado à política e à polícia, os leões-de-chácara da estrutura social, unidas que estão nesse imenso esforço conservador sustentado e só tornado possível pelos impostos que você e eu pagamos. E a mídia aí está para fiscalizar esses leões-de-chácara, como o Estado e a política, não deixando que se desviem de seu papel principal, que é o de proteger a prática do roubo de trabalho, marca registrada da vida regida pelo capital.

Ao pagarmos impostos, estamos todos, portanto, defendendo e ajudando a conservar e a perpetuar esse estado de coisas, que se caracteriza pela corrupção-mãe, que é a base do capitalismo. Agora, ficou fácil entender por que o Estado, a política, a polícia, o Direito e todas as instituições são corruptos na origem e por definição. São meros protetores e defensores da corrupção-mãe, do Estado à religião e à família.

Dessa forma, quando você topa com um político ou funcionário público corrupto, já sabe que ele, que já era corrupto na origem, resolveu ser duplamente corrupto ao também esfoliar e lesar a máquina do Estado, locupletando-se com recursos públicos.

Este é, para o capital, o pior dos corruptos porque, em vez de proteger a corrupção-mãe, caracterizada pelo roubo de trabalho, trata de espoliá-la e colocá-la em risco, apropriando-se de recursos que seriam destinados justamente a protegê-la e a azeitar sua engrenagem. Esse é um ladrão ao quadrado, e está coberta de razão a engrenagem do capital quando o persegue e fica indignada com a impunidade.

É só assim que se deve entender a corrupção. Viu como você vinha sendo inocente e ingênuo quando bradava contra a corrupção e a impunidade? No Brasil, a corrupção está, por definição, no DNA e em todos os poros da estrutura social, como em qualquer país. Apenas que padecemos mais do mal da impunidade, que o capital precisa abominar e banir para garantir a própria sobrevivência. Abraços, Tom Capri.

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