GOLDEN CROSS CONDENADA – Juíza Marielza Brandão Franco, da 29ª Vara Cível de Salvador, condena a Golden Cross

GOLDEN CROSS CONDENADA – Juíza Marielza Brandão Franco, da 29ª Vara Cível de Salvador, condena a Golden Cross
abril 12 08:30 2011 Imprimir este Artigo
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GOLDEN CROSS CONDENADA – Juíza Marielza Brandão Franco, da 29ª Vara Cível de Salvador, condena a Golden Cross

OBRIGACAO DE FAZER

 

Inteiro teor da decisão:

 

0185597-83.2007.805.0001 – OBRIGACAO DE FAZER

Autor(s): Marcia Ribeiro Da Anunciacao

Advogado(s): Carolina de Jesus Nunes

Reu(s): Golden Cross Sa

Advogado(s): André Magno Silva Bezerra

Sentença: Vistos etc,

MÁRCIA RIBEIRO DA ANUNCIAÇÃO, devidamente qualificado nos autos, por advogado legalmente habilitado, ajuizou a presente AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER COM PEDIDO DE TUTELA ANTECIPADA, CONTRA GOLDEN CROSS S/A, também já qualificada, aduzindo em síntese que celebrou contrato de seguro de saúde com a Ré em 15 de outubro de 2007. Aduz que foi acometida por insuficiência respiratória aguda e crise asmática, sendo mantida na emergência durante sete horas e que ao necessitar de novo internamento teve seu pedido negado pela Ré. Alega que a negativa do procedimento é ilegal e pede a antecipação de tutela para obter autorização para o procedimento. Juntou os documentos de fls. 09/34.
Liminar concedida às fls. 36//37.
Citada, a ré apresentou contestação às fls. 45/53, argüindo que não há cobertura para permanência da autora na emergência por período superior a doze horas, tendo em vista que a contratante não cumpriu o período de carência de cento e oitenta dias. Alega, ainda, que o contrato foi assinado pela Demandante, tendo esta declarado a ciência de todas as cláusulas. Pede a improcedência do pedido, juntando os documentos de fls. 54/86.
Conforme certidão de fls. 88, não houve apresentação de réplica.
Anuncio o julgamento antecipado da lide uma vez que a matéria é eminentemente de direito.

Relatado, decido.

A Demandante pretende ver reconhecido o seu direito de cobertura do procedimento solicitado a fim de manter a internação da autora, que padece de insuficiência respiratória aguda e crise asmática, pois o Plano de Saúde Demandado recusou-se a cobrir tal procedimento sob o argumento de que se tratava de procedimento expressamente excluído da cobertura contratual.
O CDC prescreve que é direito do consumidor ter acesso a produtos e serviços eficientes e seguros, devendo ser informado adequadamente acerca do conteúdo dos contratos por ele firmado para aquisição de produtos e serviços, principalmente no que se refere aquelas cláusulas que limitem os direitos do consumidor, como aquelas que regulem a autorização para procedimentos cirúrgicos.
Nota-se, que a empresa fornecedora, pretende, pelos argumentos insertos em sua contestação, fazer crer que a autora não tinha direito a cobertura porque estava no período de carência do seu contrato. No entanto, a seguradora não impugnou os documentos apresentados pela autora de que o internamento solicitado era de emergência devido ao seu quadro clinico.
Ressalte-se que é dever do fornecedor, nos termos do artigo 6º, III, da lei consumerista, transmitir as informações necessárias ao consumidor de forma clara e precisa, com base nos princípios da boa fé e da transparência e seus deveres anexos de informação, cooperação e cuidado.
Analisando a recusa da seguradora quanto à alegada pertinência do internamento hospital de urgência da autora, nota-se que as cláusulas contratuais indicadas para a cobertura não se enquadram de forma clara no objeto do pedido, nem há qualquer indício de má-fé do autor/segurado, mesmo porque, ainda que o fosse, era da seguradora o ônus de provar o fato impeditivo do direito do autor e ter adotado todas as cautelas, podendo ter exigido outros exames médicos e elaborar laudo demonstrativo da inexistência da emergência ou urgência para o procedimento Ao contrário, os relatórios médicos de fls. 33 e 34 apontam a urgência do internamento, tendo em vista a instabilidade e a complicação do quadro apresentado pela autora, que teve de ser novamente internada, sendo procedimento necessário à sua melhora.
Isso demonstra que quem tem a capacidade de aferir as reais necessidades do estado do consumidor e dos recursos necessários para preservação de sua saúde é o médico responsável pelo tratamento, que inclusive responde civilmente pelos danos causados ao seu paciente em caso de erro ou negligência médica e se a seguradora tinha fontes científicas reais para saber que não se tratava de emergência médica para negar autorização para o internamento deveria manter contato com o médico responsável para verificar a situação clínica e médica da autora uma vez que este é a parte hipossuficiente na relação de consumo.
No caso sub exame, verifica-se que o estado da autora impõe risco acentuado para sua saúde, tendo em vista a gravidade da insuficiência respiratória apresentada pela mesma, o que pode ocasionar outros prejuízos à integridade física da autora ou mesmo resultar em sua morte.

Note-se que as situações de emergências e urgências são tratadas de forma diferenciada, inclusive quanto ao prazo de carência, pois, nestas situações, como ocorreu com a Autora, não se discute a existência dos prazos de carências contratualmente estabelecidos.

Veja jurisprudência neste sentido:
“PLANO DE SAÚDE. PRAZO DE CARÊNCIA. INTERNAÇÃO DE URGÊNCIA. O prazo de carência não prevalece quando se trata de internação de urgência, provocada por fato imprevisível causado por acidente de trânsito. Recurso conhecido e provido.” (STJ – RESP 222339 – 28/06/2001 – fonte: Informa Jurídico 27a ed.)

Nota-se que está previsto no contrato que a situação de emergência definida nas condições gerais do contrato como evento em que há necessidade de atuação médica imediata e somente há limitação de 12 horas para os casos de cobertura ambulatorial. Nas hipóteses de internamento, como é o caso em análise, o plano de saúde deve garantir a internação desde a admissão do paciente até a sua alta visando à preservação da vida, órgãos e funções do paciente não tem exceção quanto a carência, devendo seguir a condição especial estipulada porque não pode ser sacrificada uma vida diante da situação emergencial em que se encontrava.
Portanto, a utilização dos serviços nos casos de emergências não pode ser tratada da mesma forma param os demais casos, em que o segurado pode esperar por atendimento sem sofrer risco de lesão grave da sua saúde.
Injusto, como pretendido pelo réu, não autorizar o internamento da autora que se encontrava em situação de emergência.
Isso porque em caso de urgência ou emergência, há um afastamento da incidência da cláusula que prevê a carência, em face ao disposto no art. 12, § 2o, inciso I, da Lei n. 9.656, de 03.06.98, que regulamenta os Planos de Saúde, conforme transcrevo abaixo:
“ § 2º – É obrigatória cobertura do atendimento nos casos:
I – de emergência, como tal definidos os que implicarem risco imediato de vida ou de lesões irreparáveis para o paciente, caracterizado em declaração do médico assistente;
II – de urgência, assim entendidos os resultantes de acidentes pessoais ou de complicações no processo gestacional.
§ 3º Nas hipóteses previstas no parágrafo anterior, é vedado o estabelecimento de carências superiores a três dias úteis.”
A jurisprudência vem se posicionando neste sentido, conforme transcrevo abaixo decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul:

RELATOR: Paulo Sérgio Scarparo
EMENTA: APELAÇÃO CÍVEL. PLANO DE SAÚDE. HÉRNIA INGUINAL ENCARCERADA. PLANO HOSPITALAR. PERÍODO DE CARÊNCIA. TRATAMENTO DE EMERGÊNCIA. COBERTURA DEVIDA. 1. A carência máxima admitida para tratamentos de casos de emergência – que implicarem risco imediato de vida ou de lesões irreparáveis para o paciente é de vinte e quatro horas (art. 12, V, ¿c¿, da Lei n. 9.656/1998). 2. Nos planos hospitalares, a restrição do atendimento de emergência limita-se ao âmbito ambulatorial.
DATA DE JULGAMENTO: 02/04/2008
PUBLICAÇÃO: Diário de Justiça do dia 09/04/2008

Em que pese seja a requerida uma instituição privada, que tem nos lucros a sua finalidade precípua, não pode esquecer que os contratos de planos de saúde é um contrato de trato sucessivo, de longa duração, que visa proteger um bem jurídico que é a vida humana e, possui uma enorme importância social e individual, devendo as seguradoras ter consciência que acima da busca de lucros em seu ramo de atividades, está a integridade física e a vida do consumidor.
Assim, não se pode deixar de reconhecer a abusividade da negativa injusta pela empresa ré, pratica que fere os princípios da equidade e provoca o desequilíbrio contratual.
Não esquecendo que a nova concepção do contrato, sem desprezar totalmente a liberdade de contratar, prestigia a dignidade da pessoa humana ao proclamar que seu conteúdo deve observar os limites da função social dos contratos.
Constata-se que a empresa ré agiu de forma abusiva, demonstrando falta de compromisso com os princípios básicos que devem nortear os contratos, como boa fé, transparência, dever de informação e confiança, causando ao autor o conseqüente constrangimento de ter negado o pagamento integral do das despesas realizadas com a cirurgia de emergência, o que não ocorreria caso esta fosse mais diligente com os seus clientes.
Assim, por tudo que acima foi exposto, e pelo que dos autos consta, julgo procedente a ação para reconhecer a injustiça da negativa do internamento solicitado e confirmar a tutela antecipada deferida e determinar que a empresa ré arque com o valor total do procedimento, acrescido de juros legais e correção monetária a contar do pagamento até o efetivo reembolso.
Condeno, ainda, os réus ao pagamento nas custas processuais e nos honorários advocatícios, que arbitro em 15% (quinze por cento) do valor da condenação atualizada, levando-se em conta do grau de zelo do profissional, o tempo exigido para o seu serviço e a complexidade da causa, nos termos do artigo 20 § 3º do CPC.

P.R.I.

Salvador, 21 de Fevereiro de 2011

MARIELZA BRANDÃO FRANCO
Juíza Titular da 29ª Vara de Relações de Consumo

 

Fonte: Diário de Justiça da Bahia

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