A existência de sujeito na loucura vista por Foucault

Publicado por: MikeN
19/07/2009 10:00 PM
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Divulgação/Redes Sociais
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A existência de sujeito na loucura vista por Foucault

 

Por Soraya Moradillo Pinto

O Profº. Dr. José Menezes, no seu artigo O Sujeito da Loucura, faz uma análise dos argumentos de Foucault sobre a História da Loucura . Aduz que Foucault embate com Descartes no sentido do louco ser ou não sujeito. E levanta a questão se “o louco pode ser sujeito com os referentes instituídos por Foucault, em sua obra, sendo capaz de enunciar a sua própria realidade e condição ou é ele, apenas um fantoche manipulável por não ser dotado de razão” como é o entendimento de Descartes.

 

Concluindo a sua análise, o Ilustre Professor declina que, no seu entendimento não existe sujeito quando se é louco, porque “no cenário que Foucault chama de classicismo o louco é uma mera massa de modelar que responde aos imperativos estabelecidos pelos dispositivos racionais” , contrapondo-se no que afirma ao final; quando insere no seu texto que para Foucault, o sujeito é impensável sem a loucura e que é ela que o dota com uma “vontade de potência”, que o retira da aridez mórbida instaurada e pelos perigos da racionalidade. Ora. Esta humilde aluna atreveu-se a fazer uma pequena análise do texto de Foucault e do artigo do nosso mestre Menezes, observando que Foucault, em nenhum momento da sua obra História da Loucura, se refere a subjetividade do sujeito e, que durante toda a sua digressão fala muito sobre a criação de estabelecimentos destinados à internação dos pobres, mendigos, pessoas que não conseguiam o necessários para sustentar-se e os loucos.

 

Aduz Foucault, que os loucos eram internados nos mesmos lugares que os pobres e os desempregados e não menciona nenhum critério de avaliação que determinasse a loucura ou justificasse a internação de “loucos” e “lúcidos” no mesmo espaço. Então surge a pergunta: que loucos são esses aos quais Foucault se refere? àqueles que eram portadores de uma patologia ou àqueles que possuíam idéias revolucionárias e, portanto, se mostravam perigosos, uma ameaça para o regime, necessitando serem assim segregados em cárcere? .

 

Para Jackislandy Meira de M Silva, “conceito de loucura em Foucault não é exatamente um conceito ligado ao patológico ou aos que ele chama de “doentes mentais”, são loucos todos aqueles que não se enquadram à normalidade ditada pela sociedade”. Foucault insinua bem esse detalhe perceptível por poucos, quando se refere ao Hospital Geral e lugares dele dependentes: Soberania quase absoluta, jurisdição sem apelações, direito de execução contra o qual nada pode prevalecer – o Hospital Geral é um estranho poder que o rei estabelece entra a polícia e a justiça, nos limites da lei: é a terceira ordem de repressão.

 

Os alienados que Pinel encontrou em Bicêtre e na Salpêtrière pertenciam ao universo. E mais adiante enfoca: “Em seu funcionamento, ou em seus propósitos, o Hospital Geral não se assemelha a nenhuma idéia médica. É uma instância da ordem, da ordem monárquica e burguesa que se organiza na França...”. Não podemos esquecer que a loucura traçou o caminho da dúvida no século XVI , surgindo na França as instituições de internamento. Naquela época um Estado forte e absoluto tomou a forma de monarquia nacional e o processo centralizador teve o seu contexto marcado por disputas religiosas que envolviam a burguesia, nobreza e populares e se referia à fragmentação de poder e a imposição de limites do poder real.

 

A idéia renascentista propunha então, uma ruptura cultural e o estudo da filosofia moral tinha por objetivo criar seres humanos livres e civilizados. Os renascentistas, como os iluministas, procuravam mostrar que a pobreza não era uma condição imposta por Deus como expiação, porque Deus via ricos e pobres do mesmo jeito, mas os pobres é que viam a sua condição como castigo e assim, não se rebelavam contra o poder que os oprimia e os deixavam cada vez mais miseráveis. Desse modo, vozes se levantavam, contra o sistema político que vigia na época, vozes estas que consistiam em uma ameaça a suposta “racionalidade” ditada pelo sistema.

 

E a desrazão; como comenta Fábio Belo “sendo tudo aquilo que escapa as tentativas incessantes de controle racional da hierarquização, do equilíbrio da clareza, o que atrapalha a organização” , tinha que ser banida por consistir numa ameaça. Rebelar-se contra a pobreza, por exemplo, implicava em loucura e conseqüente internação, mas o pobre dominado era aceito pelo sistema, porquanto era o poder quem ditava quem deveria ser ou não internado. Empreende-se assim, como ressalta João Carlos Correia: Um trabalho consistente e minucioso de recensão de mecanismos de vigilância e poder que se tornaram visíveis em instituições e asilos, as prisões, hospitais e famílias. O poder é analisado como operando através de uma multiplicidade de dispositivos de controlo e vigilância que estão na própria raiz de novos discursos sobre a verdade, o conhecimento e os comportamentos sociais. Foucault enfatiza que até a Renascença, a sensibilidade à loucura estava ligada à presença de transcendências imaginárias e observamos isto na obra de Dodds quando afirma que Platão, em Fédon atribuía todos os pecados e sofrimentos da psykhé ao extravasamento resultante do contato com um corpo mortal: “somente com a morte ou autodisciplina se purga o “eu” racional da “loucura do corpo”, podendo assumir sua verdadeira natureza, que é divina e sem pecado: a boa vida é a prática desta purificação”.

 

Sendo significativo o comentário de Rosana Madjarof: Que a alma está no corpo como um cárcere sendo o intelecto impedido pela visão das idéias que devem ser trabalhosamente lembradas e que somente a morte desvencilha a alma do corpo fazendo com que o homem realize a sua verdadeira natureza com a contemplação intuitiva do mundo ideal.

 

Desse modo, entendo que existirá ou não sujeito na loucura a depender da forma em que ela esteja sendo vista, se como patológica, atendendo assim o entendimento de Descartes e Platão que pende para a sua inexistência, ao entender a razão, enquanto consciência moral, como vontade racional livre que não se deixa dominar pelos impulsos passionais, mas realiza ações morais como atos de virtude e de dever ditados pela inteligência ou pelo intelecto ou, como ideológica atendendo a argumentação de Foucault de que; louco será considerado todo aquele cujas idéias, por serem racionais e estarem fundamentadas em uma lógica persuasiva, contrariam o Poder.

 

Soraya Moradillo Pinto é desembagadora do TJBA

 

É esse sujeito da Loucura do qual entendo trata Foucault em seu texto.

Referências BELO, Fábio. Desrazão e Pulsão. http://fabiobelo.wordpress.com/2008/02/17/desrazao-e-pulsao/. Acesso em 06.05.2008. CORREIA, João Carlos. Estado, Sociedade Civil e Serviço Social.

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http://www.mundodosfilosofos.com.br/platão.htm. Acesso em 03.03.2008. MENEZES, José. O Sujeito da Loucura. Revista Mente Cérebro e Filosofia, 2007. MICHEL, Foucault. Historie de la Folie à l’Âge Classique . Gallimard. 1972 . Org. e trad. José Teixeira Coelho Netto. São Pulo: Perspectiva S.A, 1997. SILVA, Jackislandy Meira de M. História da Loucura II.

http://umasreflexoes.blogspot.com/2008/03/histria-da-loucura-ii.html. Acesso em 06.05.2008. SILVEIRA, Rodrigo Martins da. Razão e sensibilidade: que força é mais evidente no homem?. http://www.frb.br/ciente/2006.1/PSI/PSI.SILVEIRA.F2.pdf. Acesso em 03.03.2008.

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