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Inferno na torre

Diante da enxurrada de provas comprometedoras, e considerando que as revelações podem atingir outros membros do Congresso Nacional, foi montado um forte esquema para blindar o senador, que só pode ser salvo se continuar com o mandato. Ele é procurador de justiça licenciado do Estado de Goiás, o que significa que, se fosse julgado pelo tribunal daquele estado, correria o risco de ser preso.

Luiz Holanda

A torre ética em que o senador Demosthenes vivia encastelado no Senado da República – também conhecido como o Palácio da Corrupção-, parece que vai sendo consumida, lentamente, pelas chamas provocadas pelos recentes escândalos em que se envolveu. Denunciado por suas relações criminosas com Carlinhos Cachoeira, um dos chefes da máfia dos caça-níqueis, o senador, nascido na pequenina Anicuns, no interior goiano, é formado em Direito pela Universidade Católica de Goiás e membro concursado do Ministério Público daquele Estado, desde 1983. Foi procurador geral do órgão, Secretário de Segurança Pública de Goiás e, logo depois, eleito senador em 2002. Batalhador incansável pela moralização da vida pública e considerado pela mídia como um dos 100 brasileiros mais influentes de 2009, transitava com desenvoltura no mundo político e no submundo da criminalidade. Até recentemente era presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Em março deste ano veio a público seu envolvimento com a máfia dos caça-níqueis, conforme apurado nas investigações que antecederam a Operação Monte Carlo. A Polícia Federal revelou que o senador tinha estreitas ligações com Carlinhos Cachoeira, preso por corrupção, lavagem de dinheiro e outras fraudes. Surpreso com as revelações, não soube explicar as quase trezentas ligações telefônicas mantidas com o bicheiro, a quem chamou de “empresário” e por quem mantinha uma “grande amizade”. Suas declarações logo foram desmentidas pela Polícia Federal. Nos relatórios das investigações o senador aparece pedindo para o bicheiro pagar uma despesa feita com um táxi-aéreo no valor de R$ 3mil, além de ter vazado para o mesmo informações de reuniões oficiais.

Para agravar ainda mais sua situação, o delegado Deuselino Valadares dos Santos, quando era chefe da Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros (DRCOR), da Superintendência da PF em Goiânia, revelou que Demosthenes tinha direito a 30% da arrecadação geral do esquema do jogo clandestino, calculada em cerca de 170 milhões de reais. Posteriormente, esse delegado foi preso durante as investigações da Operação Monte Carlo. Dizem que foi cooptado pelo esquema do bicheiro tão logo descobriu a corrupção envolvendo o senador. Ao longo das investigações, que durou mais de três anos, a PF descobriu que o delegado passava informações sigilosas para o bando, além de ter se associado ao bicheiro numa empresa montada exclusivamente para lavar o dinheiro proveniente do jogo.

Diante da enxurrada de provas comprometedoras, e considerando que as revelações podem atingir outros membros do Congresso Nacional, foi montado um forte esquema para blindar o senador, que só pode ser salvo se continuar com o mandato. Ele é procurador de justiça licenciado do Estado de Goiás, o que significa que, se fosse julgado pelo tribunal daquele estado, correria o risco de ser preso. A jogada arquitetada por Sarney e Renan para salvá-lo passa pela indicação de um peemedebista para comandar a Comissão de ética do Senado, com poderes para arquivar qualquer processo, enquanto o STF arrastaria o inquérito por décadas, até o mesmo ser esquecido.

Mesmo que esse esquema funcione, as revelações de que o senador era sócio e amigo do bicheiro mancharam para sempre sua imagem. Os desdobramentos do escândalo já fizeram o senador descer a ladeira rumo ao descrédito e à decadência moral. E à medida em que mais revelações vêm a público, fica provado que o relacionamento entre ele e o bicheiro vai além de uma simples amizade -o que seria inadmissível-, pois o senador aparece como seu sócio e representante. Não se sabe até onde chegarão as investigações sobre a corrupção envolvendo sua pessoa e outros parlamentares. A conclusão lógica é que, mais uma vez, nada resultará das revelações senão uma ínfima indignação pública ante os escândalos publicados pela imprensa. Ir além das galerias do Congresso envolvendo a população poderia dar algum resultado prático. Como isso é praticamente impossível neste país, a faxina ética de que ele tanto necessita jamais acontecerá. Um grupo minoritário de senadores e alguns deputados, ainda não formalizado, enxerga na sociedade a única que pode pressionar o Congresso a tomar uma atitude. O problema é que lá, pelas denuncias da imprensa, poucos se salvam. Enquanto isso não vem, a torre de Demosthenes pega fogo.

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