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Infidelidade sob a ótica dos infiéis

Por Priscila Valverde Pacheco[1]

RESUMO

Neste estudo é abordada a visão dos infiéis sobre o rompimento da exclusividade conjugal.  Veremos quais são as impulsões, justificativas para a prática da infidelidade dadas por quem foi infiel. É posto em foco a relativização da infidelidade, desde precedentes históricos às concepções modernas, como o Swing. Juntamente com tentativa de conceituação do termo, evidenciamos as diferentes faces que a infidelidade pode adquirir, desde o campo emocional/físico, ao campo dos gêneros.

INTRODUÇÃO

Este trabalho visa evidenciar como um termo, há tanto tempo vivido conosco, participante vizinho, ou até mesmo ator principal em nossas vidas, pode adquirir significados tão divergentes quando à sua conceituação. A infidelidade, antes vista com único e extremado repúdio pela sociedade Ocidental (e na Oriental, porém só atingindo mulheres infiéis), passa a sofrer rupturas com a carga moral nela depositada, destinando-se ao estudo dos motivos/impulsos em ambos os gêneros para que a mesma ocorra. “Este deslocamento modifica as práticas de vigilância. Se antes estávamos às voltas com técnicas de domesticação do corpo, interessa-nos agora a suspeita sobre o movimento do desejo” (DUNKER, 1995).

Nesse estudo, ouviu-se também a parte praticante das violações das normas que regulam o nível emocional ou da intimidade física com pessoas fora do relacionamento (DRIGOTAS e BARTA, 2001). Hoje, pode-se ver a infidelidade com diversos significados (mais rica de conhecimento) por analisá-la sob uma ótica antes esclusa  descartada, espremida pela moral, a ótica dos infiéis. Apenas no contexto contemporâneo dá-se voz a esse grupo, levando a desvendar quais são os motivos para praticarem tais quebras de confiança ou rompimentos de acordos (PITTMAN, 1994).

A partir da conceituação inicial sobre o que é infidelidade, veremos as nuances que a ação pode alcançar, desde os sentimentos que afloram em ambos os cônjuges/companheiros, às concepções individuais sobre tal vivência, abordando também a visão dos praticantes do “adultério consentido” (WEID, 2010), o Swing, onde casais realizam trocas de casais em locais destinados a isso.

Comumente, o discurso acerca da infidelidade é construído através de uma visão unilateral, apenas por parte dos “traídos”, com atribuição de valores negativos à infidelidade. Em uma pesquisa realizada pela professora da Universidade Católica Portuguesa, Maria Guilhermina Castro, um grupo de pessoas é questionado acerca da significação dos termos ‘fidelidade’ e ‘infidelidade’ para si. A conclusão resultou no surgimento de diversos grupos distintos (e até opostos),  abrangendo desde pessoas que consideram a traição exterior a si, como algo que pertencesse somente à terceiros;  grupos de pessoas que alguma vez na vida tiveram  uma experiência de infidelidade, levando-nos a encarar quais são as motivações para ser infiel; o grupo dos “ser traído”, reportando-se a um nível dos sentimentos que eclodem após uma infidelidade, como mal-estar (ódio, dor, tristeza) e desvalorização de si próprio (baixo valor próprio, insegurança, rebaixamento) – a traição aqui é análoga à mentira e ao desrespeito. Outro grupo evidenciado, “sou fiel aos valores”, pressupõe a fidelidade como um valor. A fidelidade torna-se nesse grupo referência à educação, à sociedade e à moral, tratando um indivíduo fiel como um ser “moralizado”. O grupo “sou sempre fiel”, engloba pessoas que afirmaram sempre terem sido fiéis, “ser fiel por não haver motivos para não ser” e “isso basta para mim”. O último grupo, “pró-relacional”, de cunho mais afetivo, como amor, confiança, respeito, companheirismo, carinho, partilha, apoio, reciprocidade e verdade, conteúdos esses também referidos à fidelidade. Apresenta-se aqui a felicidade e o bem-estar associados à calma, à segurança e ao conforto do conhecido.

A conclusão desse estudo permite-nos observar, desde já, como os comportamentos relacionados à infidelidade são variados. Enquanto o segundo grupo relata quais são os motivos para o desdobramento de uma relação extra-conjugal, através de um cunho “defensor”, o grupo “sou fiel aos valores” alega jamais ser justificável a prática de tal ato. Através do ideal de “quem ama não trai”, descredibilizam o sentimento do infiel, atribuindo-lhe traços perjorativos, como mentiroso, enganador, desrespeitador, egoísta, dentre outros.

Os motivos para ser fiel apresenta-se, desse modo, na ausência de algo, visto que se concentram na falta de motivos para trair. Se é fiel por remeter-se à cartilha da moral e dos bons costumes, por repudiar os atos de traição por considerem estes pertencentes aos “desrespeitosos”, aos “marginalizados moralmente”, enquanto as principais implicações para a traição estão na exploração do desconhecido (novidade), problemas íntimos na relação, desejo sexual, uso de drogas, dentre outros.

Segundo Almeida (2007), relações monótonas, que caem na rotina também são convites ao adultério. Para o autor, por estes e outros fatores os cônjuges buscam aventuras amorosas porque geralmente procuram aquilo que lhes falta em seu próprio relacionamento.

“Os relatos das mulheres que foram infiéis na sua relação conjugal propiciaram a construção de seis categorias de análise: 1) A frustração e a insatisfação na relação conjugal; 2) O envolvimento emocional como justificativa para a infidelidade; 3) A dupla moral sexual e as diferenças de gêneros; 4) A culpa e o arrependimento pela infidelidade; 5) O prazer na relação extraconjugal; 6) A infidelidade culminando na separação conjugal.” (SOUZA, 2009).

Tendo a frustração e insatisfação com o cônjuge como principais incipientes femininos para a infidelidade, “[…] esta terceira pessoa traz consigo novidades, como a sobrevalorização das qualidades e uma subvalorização dos defeitos, isto é, proporciona a comparação entre as duas relações vivenciadas. O que acontece agora é uma renovação do que outrora parecia perdido.” (ALMEIDA, 2007)

Quando inicia-se um relacionamento amoroso, comumente surge o enaltecimento das qualidades do parceiro, enquanto espera-se, durante o transcorrer do tempo e com a ajuda do convívio cotidiano, modificar as cateterísticas consideradas indesejáveis. O início é imerso em boas perspectivas, onde os defeitos ocupam um plano menor e mutável. Rassial (2003) evidencia a paixão em sua fase inicial com os parceiros considerando que tudo de bom está no outro, e se espera corrigir as “pequenas falhas” que possam haver através do hábito diário. Posteriormente, visto que alguns hábitos considerados menores durante o início do relacionamento passam a persistir e afetar no caminhar do mesmo, o sujeito passa renunciar à possibilidade de que o outro seja totalmente bom. A descaracterização do parceiro como indivíduo dotado unicamente de qualidades é uma das premissas para a busca de um outro que mais atenda (se aproxime) do ideal de companheiro, visto que, na verdade, busca-se a efervescência das sensações e sentimentos que eclodem no início das relações. O ser humano vive numa constante busca por uma completude utópica, passando a constantemente desejar o que não tem. E assim, uma vez dentro de um relacionamento e motivado pela falta que identifica, o ser humano parte para a busca de satisfazer o que lhe falta, seja afetivamente ou sexualmente (Larrañaga, 2000).

Nessa busca pela completude utópica é onde ocorre rompimento de acordos/normas que podem transcender o campo do físico, atingindo o emocional, ou ambos.

“A infidelidade sexual é qualquer comportamento que envolva um contato sexual, como beijar, toques íntimos, sexo oral ou quaisquer outros tipos de relações sexuais, entretanto, a infidelidade emocional é definida pela formação de um vínculo emocional e afetivo por uma terceira pessoa.” (ALMEIDA, 2009).

Quando há um envolvimento sentimental antes mesmo do ato sexual ser concebido, nota-se, ainda assim, “[…] uma quebra do contrato por uma, ou por ambas as partes do casal. Então, ao término da paixão, e/ou quando esta se metamorfoseia em amor, o olhar e o investimento potencialmente podem se deslocar.” (SOUZA, 2009). “Para a mulher é bem mais fácil cair na armadilha do “amor romântico”, imaginando que aquele caso supriria todas as suas carências e, por isso, apaixonar-se pelo amante é quase inevitável.” (Pereira & Monteiro, 2001).

As mulheres, em sua maioria, enxergam a infidelidade feminina como sendo mais “digna”, mais aceitável que a masculina, por não se tratar apenas de um desejo sexual, mas de um envolvimento emocional (SOUZA, 2009). Matarazzo (2000) complementa afirmando que a busca do prazer sexual representa apenas uma pequena parte da motivação que as levam ao comportamento infiel.

Assim, o conceito e justificativas para a infidelidade conjugal podem gerar muitas ações e situações distintas, todas relacionadas a um mesmo denominador comum: uma relação amorosa e o rompimento de compromisso de exclusividade, explícito ou não.

Quando se está sendo fiel à pessoa com a qual você se relaciona sem que seu desejo esteja direcionado a ela, você estaria sendo infiel a si mesmo, ou então, você pode optar por ser infiel, mas sofrerá as consequências pelo ato. Sendo assim, tudo levaria o ser humano ao experimento, dado ao conjunto de desejos e variedades de se viver e de se relacionar consigo e com o outro. (Sousa, Santos & Almeida, 2009.)

Segundo Lillibridge (1995), embora homens e mulheres tenham casos extraconjugais, estes existem por diferentes causas. As mulheres têm casos, geralmente, para se sentirem queridas, especiais e importantes, para serem apreciadas como pessoas, pois, comumente, uma relação sexual sem um envolvimento além do físico não é tão importante para elas. Nota-se a necessidade de serem vistas, de um reconhecimento como pessoa,  não apenas desejadas para o ato sexual.  Por outro lado, os homens geralmente têm casos para serem sexualmente aceitos, querem uma mulher que aprecie sua aparência e os considerem sexualmente atraentes e capazes de satisfazê-la.

Um dos principais motivos para o acontecimento de uma relação extraconjugal consiste na busca do enaltecimento do ego por ambas as partes. Ambos visam ser valorizados, porém em campos distintos. O homem volta-se ao campo físico, sendo avaliado pelo seu desempenho sexual, e, na maioria dos casos, não almejando nada além do ato. A mulher, por sua vez, busca na infidelidade uma “cura” para suas insatisfações pessoais na relação com o cônjuge, almejando encontrar nesta terceira pessoa uma fonte de recuperação do carinho, empolgação, novidade perdidos ao longo do tempo. É mais ocorrente mulheres se envolverem afetivamente, apaixonando-se pelo amante, que os homens em mesmas circunstâncias.

PRECEDENTES HISTÓRICOS

A espécie humana não é inerentemente monogâmica, todavia, devido às imposições culturais, morais, sociais, religiosas, aderem à mesma. Fidelidade e infidelidade, entretanto, dependendo da localização do indivíduo, tornam-se objetos naturais. “Dessa forma, todos podemos ser (in)fiéis em determinada altura da nossa vida, depois de sermos (in)fiéis a maior parte da nossa vida. Assim, em relação à temática não há uma polarização absoluta.” (ALMEIDA, 2009)

Observando a história é possível constatar que “[…] para a sociedade, a infidelidade no sexo masculino é culturalmente mais aceita e quase ‘estimulada’, encontrando justificativa por meio do instinto masculino, no desejo.” (Vavassori, 2006). O homem reserva-se ao “direito” de ser infiel por incontrolar seus desejos, seus instintos, tornando a prática de relações extra-conjugais algo natural por atender ao seu corpo, aos estímulos naturais inerentes ao indivíduo.

“Esta cultura que privilegia o sexo masculino, a sociedade patriarcal, nasceu no berço da civilização, a Mesopotâmia, no Oriente Médio e muito da sua historicidade está relatada na Bíblia. Abraão, personagem bíblico, representava um típico patriarca. Para ele, a mulher era um elemento inferior, impura, não podia participar do sacerdócio, pois era uma atividade exclusiva do homem, nem podia frequentar o templo. Para a sociedade patriarcal a mulher era posse do homem, propriedade particular, como os animais e servos.” (Nunes, 1987)

Para os homens gregos, a esposa era um bem adquirido pelo marido, e dela se era exigido exclusividade sexual, enquanto do contrário não acontecia o mesmo, exemplicado pelas palavras de Foucault (1984): “Pois se a mulher pertence ao marido, este só pertence a si mesmo.”

O casamento, entretanto, não era irrompível. Apenas algumas ressalvas garantiam o desquite, como no caso da esposa não poder gerar herdeiros, de uma guerra entre antigos aliados, ou em caso de incesto. A bigamia era elemento comum e habitual, contestada apenas pela Igreja.

Uma nova configuração foi se estruturando aos poucos no Ocidente, com o erotismo extraconjugal fazendo cena no relacionamento conjugal. O amor e a paixão atuando e sendo vistos como modelo para os relacionamentos. “É somente a partir desse momento que as pessoas passam a se casar por amor.” (ALMEIDA, 2009)

Em 1960 surgem as quebras para com este comportamento de submissão feminino, acorrentado desde a Idade Média (com a repressão sexual imposta pela Igreja, onde o sexo não poderia ter vínculo prazeroso, porém poderia atender à necessidade fisiológica e dar prazer ao homem).

“[…] a partir da revolução sexual, o direito igualitário ao voto, a inserção da mulher no mercado de trabalho e a descoberta da pílula anticoncepcional, os quais induziram a mulher ao sexo livre, no entanto, não a livraram dos estigmas e discriminações em consequência do seu comportamento.” (Braga, 2005, In Nascimento, 2008).

Anteriormente, a decisão da realização do divórcio estava concebida única e exclusivamente nas mãos do marido. Após a revolução sexual, vê-se as mulheres fazendo campanhas para a aceitação e aprovação da Lei do Divórcio, “[…] pois viver numa relação por obrigação, cheia de tristeza, insatisfação, violência e marcada pelo insucesso, a depreciava muito mais do que viver como divorciada.” (Mold, 2006).

CAMPO DAS EMOÇÕES

A infidelidade pode provocar as mais diversificadas emoções e reações entre parceiros que passam por essa experiência como surpresa, desapontamento, dúvidas sobre si, rebaixamento da autoestima, angústia, culpa, raiva, vingança, negação, e, em casos mais extremados, suicídios e crimes passionais. Pode, entretanto, acarretar em um fortalecimento, uma restauração do relacionamento, como se foi visto em uma pesquisa realizada com cinco mulheres casadas, com idade variando entre 30 a 38 anos, que já foram infiéis na relação conjugal, e entre os praticantes do Swing, uma prática de trocas de casais para atos sexuais.

Todas as mulheres entrevistadas mostraram-se arrependidas de terem sido infiéis, e, segundo Scabello (2006), é comum à mulher que foi infiel se sentir culpada diante da sua infidelidade conjugal, e também muito arrependida pela infidelidade, pois isto é um ato reflexo das repressões sexuais vivenciadas pela mulher durante anos, o que as fazem sentirem responsáveis por todos os problemas, fracassos e dificuldades do casamento. Em suas respostas, entretanto, mostram o envolvimento afetivo com o terceiro como uma justificativa plausível para o acometimento da infidelidade, e a confissão da mesma com os parceiros levam-nas a revelar as fraquezas, os pontos cruciais, angústias, insatisfações com o relacionamento, despertando ambos para uma fase de reconstrução do relação amorosa.

Não há verdade absoluta sobre destino final de um relacionamento atravessado por uma traição. Nem todo mundo que trai, ou é traído, quer abandonar a relação.

“Quando o amor é verdadeiro e a relação é sólida, o ressentimento produzido por uma infidelidade casual, nem sempre significa a destruição da união. Contudo, em se tratando da separação conjugal, cabe destacar que em quase todos os relatos a decisão pelo fim da relação partiu das mulheres que foram infiéis, isso após a descoberta da infidelidade pelo cônjuge”.

Em alguns casos, a mulher não consegue retornar ao convívio com o parceiro por peso na consciência de ter sido infiel, sentir-se inferior, procurando, então, se afastar da lembrança do ocorrido. Em outros, a causa do fim do relacionamento se dá por apaixona-se pelo amante.

A religião e a situação financeira da família também são outros pontos que pesam na decisão de dar uma nova chance ao casamento ou dissolvê-lo (Menezes, 2005). Esta demanda predominantemente feminina de separação pode ser compreendida como uma das consequências da diferença da forma como a mulher vê o casamento, uma “relação amorosa”, enquanto que para os homens ele é visto como uma “constituição de família” (Féres-Carneiro, 2003).

O SWING

Ao colocarmos a prática do Swing em cena, vemos uma nova configuração de relações conjugais acerca do tema “infidelidade”. Esse é um tema bastante evidenciado entre os casais, visto que estes afirmam que uma das premissas fundamentais para aderirem à prática é demarcar nitidamente o que é amor e o que é sexo. Nas trocas de casais realizadas em locais destinados, os mesmos afirmam experimentar exclusivamente o ato sexual, enquanto o ato amoroso, o “fazer amor”, reserva-se apenas ao/a parceiro/a.

Diferentemente do que foi dito por Almeida (2009), onde a infidelidade pode ocorrer nos dois campos distintos (físico e emocional), em um ou em ambos, percorrendo desde toques, carícias, encontros casuais pendulares a envolvimentos afetivos, no Swing vemos a desconsideração da carne e o enaltecimento do sentimento como único valor absoluto. A única traição é a emocional. Relacionar-se sexualmente com outras pessoas seria uma resposta a uma demanda exclusivamente fisiológica com o objetivo da satisfação momentânea. Uma prática que valoriza a estabilidade da relação conjugal ao mesmo tempo que enaltece a busca pelo novo,  a “caça sexual”. Associam as duas antíteses do início desse artigo: a necessidade da busca pelo novo, com a certeza do aconchego, segurança do já existente. Os casais swingers articulam, portanto, dois eixos ao mesmo tempo: o de feminização do relacionamento, através do cuidado com a relação, e o de masculinização, que se expressa na busca pela diversificação de parceiros sexuais

Segundo os swingers, o ponto mais significativo e de melhor sucesso para tal prática é o de ela ser realizada com a sua esposa ou com o seu marido, com a pessoa que se ama ao lado, e não com outra qualquer. As razões dessa afirmação apontam justamente para a questão da intimidade e ainda da descoberta ou da intensificação do prazer sexual com o parceiro.

A exclusividade sexual não é a maneira pela qual os casais swingers protegem o seus compromisso. Essa exclusividade, entretanto, não deixa de aparecer, ainda que sob nova roupagem. É justamente na separação entre sexo e amor que se encontra a exclusividade nas relações swingers. Para os casais swingers, é importante que o parceiro participe e seja cúmplice também da escolha da outra pessoa com quem irão se relacionar sexualmente. Para além da escolha, é importante que participe do próprio ato, seja por estar presente fisicamente, seja através do relato detalhado do desenrolar do encontro sexual. Compartilhar com o parceiro essa experiência é o foco principal, o que incrementaria sua relação amorosa.

Através da fronteira nitidamente concebida entre sexo e amor, os casais acreditam se manter exclusivos amorosamente, ainda que sexualmente “polígamos”. O amor é associado ao cuidado, ao carinho, ao sentimento, à cumplicidade, a um vínculo constituído com o parceiro que não se restringe ao físico, perpassa e o complementa. “Fazer sexo” com outra pessoa em uma casa de swing responderia aos impulsos do corpo e do desejo. Pode-se incitar que é através de um ideal de amor que se singulariza o parceiro na prática da troca de casais.

“Fazer sexo igualaria a todos, cada indivíduo em uma casa de swing é um entre muitos outros possíveis parceiros sexuais, mas o amor singulariza, pois é capaz de transformar um indivíduo em especial em uma unidade de totalidade em si.” (WEID, 2010)

A proposta swinger inclue uma “poligamia sexual”, com a preservação de uma “monogamia amorosa”. A separação entre sexo e amor parece ser um dos princípios fundamentais para aqueles que aderem à prática. No entanto, por meio dessa separação e sob o domínio do consentimento, o swing pode acabar reafirmando as relações existentes, justamente por gerar uma maior intimidade, cumplicidade entre os cônjuges.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A infidelidade por muito tempo foi (e ainda é) estigmatizada. Por imposições sociais, culturais, é sobrecarregada de significados perjorativos, transformando-a em um ato unilateral que tem como função unicamente o despejo de sentimentos ruins à relação.

Ao fundo da tamanha carga negativa depositada sem preceitos, encontra-se motivos, em sua maioria, racionais para o acomentimento da infidelidade. Poucos foram os relatos de “trair por vingança”, “trair para dar o troco”, dando um espaço enorme aos motivos voltados ao desejo inerente ao corpo, à insatisfação e descrença no relacionamento, e à busca para a cura de carências íntimas.

Os casais que participam das trocas de companheiros, os swingers, afirmam que após a quebra de tabús, como o do “amor significando a exclusividade sexual”, adquiriram um fortalecimento na relação e na intimidade incomparáveis à antes das práticas. É importante frisar que isso só se dá pelo conssentimento de ambas as partes, caso contrário pode haver uma desestruturação significativa da relação.

Ainda que conscientes de sua satisfação com admissão do swing, casais frequentam esses locais mantêm o hábito em sigilo, devido à discriminação dos praticantes por familiares, vizinhos, amigos.

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[1] Graduanda no Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades com área de concentração em Relações Internacionais. Universidade Federal da Bahia. 2013

 

 

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