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O símbolo da imprudência

Luiz Holanda

O mensalão começou no primeiro governo do PT, que precisava do apoio dos partidos para administrar o país com maioria no Congresso. O PMDB estava dividido: uma parte apoiou a candidatura de Serra; a outra, a do presidente Lula. Diante da desconfiança com os peemedebistas, o PT foi buscar suporte nos partidos menores, o que ensejou a necessidade de bancar o apoio com dinheiro, de preferência dos empreiteiros, banqueiros e industriais, naturalmente mediante a promessa de facilidades em suas respectivas áreas, como acontece na política brasileira.
Esse esquema de arrecadação permitiu o uso de recursos do Fundo Partidário entre os partidos coligados, além do loteamento da administração pública para quem se dispusesse a fazer parte da chamada “base aliada” e pagamento de salários extras para os parlamentares do bloco. As bolsas eleitoreiras seriam pagas pelos contribuintes através do aumento da carga tributária. Para este ano, por exemplo, o eleitor participará do esquema com 66% do que lhe foi surrupiado pelo governo com a nova tabela de correção do Imposto de Renda (IR). Segundo o Sindicato dos Auditores Fiscais (Sindifisco), quem ganha R$ 4.463,20 tem, pela nova tabela, um “desconto” de R$ 826,15. Se a tabela fosse corrigida corretamente, o desconto seria de R$ 2.498,52. A diferença de R$ 1.270,98, paga por cada eleitor, poderá servir para ajudar a bancar a campanha eleitoral deste ano.
Os parlamentares que prometeram apoiar o governo no início do mandato de Lula passaram a receber, segundo o ex-deputado Roberto Jefferson, uma “mesada” de R$ 30.000 mensais. O pagamento seria feito pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, condenado no processo do mensalão. O presidente, fingindo-se surpreso, disse sentir-se “traído por práticas inaceitáveis, indignado pelas relações que chocam o país e sobre as quais (ele) não tinha qualquer conhecimento”. Em seguida afirmou: “Não tenho nenhuma vergonha de dizer que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas. O governo precisa pedir desculpas”. Em vez de dizer que os corruptos tinham que ser punidos, Lula apenas afirmou que o PT e o governo tinham de pedir desculpas. Só isso.
O advogado do ex-deputado Roberto Jefferson, Luiz Francisco Correa Barbosa, indignado com essa afirmação, afirmou perante o Supremo Tribunal Federal (STF) que ele, Lula, não só sabia como ordenava. Segundo o causídico, os auxiliares do presidente eram apenas ”executivos”. Em seguida vieram as declarações do Controlador-Geral da União (CGU), do PT, afirmando em entrevista que os símbolos da corrupção em nosso país continuam soltos. Recentemente, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, confessou que “A corrupção vai além das ações atomizadas. Esse fato (a prisão dos mensaleiros) contribui, mas não será determinante para mudar o paradigma do combate à corrupção”.
Realmente, a prisão dos mensaleiros não mudou nada. A cara sorridente do Delúbio Soares na foto de O Globo ao chegar à CUT para “trabalhar” demonstra isso. O problema é que, em vez de virar essa página que mancha a história da esquerda caviar, os petistas resolveram transformar o mensalão num problema político. Os gestos que eles imaginam simbolizar alguma resistência às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) comprovam isso. O Brasil assistiu estupefato o vice-presidente da Câmara dos Deputados, André Vargas (PT-RS), cerrando os punhos e levantando o braço na frente do ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo, por ocasião da abertura dos trabalhos legislativos. Esse gesto, imprudente e antiético, passou a ser conhecido como o símbolo petista da corrupção, e não como símbolo de resistência. A arrogância e a falta de habilidade do deputado – seguidas por outros petistas-, dificultam a manutenção do projeto político do partido de permanecer no poder por mais vinte anos.
Luiz Holanda é advogado, professor universitário e membro do Conselho de Ética e Discipina da OAB/BA.

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