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Perversão e Parafilia: a inesgotável busca pelo prazer

O termo perversão tem origem no latim “perversione”, designa o ato ou efeito de perverter-se, isto é, tornar-se perverso ou mau, corromper, depravar ou desmoralizar. Na medicina, esse termo foi reservado para designar o desvio ou a perturbação de uma função normal, sobretudo no âmbito psíquico, especificamente dos desejos sexuais. Associado ao termo perversividade, temos a ideia de algo mau e destrutivo. Denota concepções como alguém sem limites ou regras, que possui apelo sexual e impulsivo às próprias vontades.

Por Breno Rosostolato*

A Perversão para a psicanálise é uma estrutura psíquica que determina determinados traços e aspectos na personalidade das pessoas. As perversões indicarão uma terceira forma de o ego negociar com os desejos do id e com a realidade. Em suma, os perversos colocam em prática aquilo que os neuróticos não têm coragem de manifestar. Inclusive, muitos dos atos característicos dos perversos, os neuróticos reprimem, recalcam. Na perversão é possível considerar, ao mesmo tempo, as exigências do id, ou seja, dos desejos e fantasias sexuais e as da realidade, sem que uma anule ou interfira na outra. Não há nem o recalcamento dos desejos, como ocorre na neurose, nem rejeição da realidade, como ocorre na psicose. Freud afirmava que a “Neurose é o negativo da Perversão” porque os neuróticos não conseguem se realizar sexualmente sem a existência da culpa como os perversos, que não apresentam culpa diante de suas escolhas sexuais e as formas de manifestarem seus desejos.

O termo perversão tem origem no latim “perversione”, designa o ato ou efeito de perverter-se, isto é, tornar-se perverso ou mau, corromper, depravar ou desmoralizar. Na medicina, esse termo foi reservado para designar o desvio ou a perturbação de uma função normal, sobretudo no âmbito psíquico, especificamente dos desejos sexuais. Associado ao termo perversividade, temos a ideia de algo mau e destrutivo. Denota concepções como alguém sem limites ou regras, que possui apelo sexual e impulsivo às próprias vontades.

A perversão sexual como estrutura psíquica pauta-se nas transgressões sexuais, ou seja, o prazer está localizado em determinadas partes do corpo, como na felação. O interesse não se localiza exatamente no parceiro que é secundário, sendo que o orgasmo é extrínseco a esta relação. Já o perverso de caráter e moral é associado à perversividade. São indivíduos que não reconhecem ninguém superior a ele, vampirizam o outro através do “assujeitamento”, ou seja, anulam o outro aniquilando a identidade alheia com o intuito de ferir, machucar e violar.

De fato, o perverso é a pessoa que não lida bem com regras e autoridade, dissimulado, não segue determinações morais e éticas, mas busca incessantemente sua satisfação pessoal, o que não se resume apenas no aspecto sexual.  Manipula através da mentira, um mitômano, seduzindo para obter proveito, sugando os recursos do outro para assim existir. Sente prazer em desafiar regras e leis. É neste contexto que surgem as parafilias.

Parafilia é um padrão de comportamento sexual em que o prazer não restringe-se a cópula mas a total possibilidade de manifestar o desejo e a quem se destina, ou seja, o tipo de parceiro que será alvo e ao mesmo tempo sustentará este desejo. As parafilias são comportamentos para concretizar o prazer, que não são socialmente aceitos, mas fazem parte da vida das pessoas de um modo geral. A maneira como cada um lida com isso. Se a permissão ao prazer não ultrapassa o nocivo e destrutivo e este comportamento não se torna prejudicial ou doentio, a parafilia passa a ser considerada apenas uma variação deste prazer. Para se tornar patológica, essa preferência deve ser de grande intensidade e exclusiva, isto é, a pessoa não se satisfaz ou não consegue obter prazer com outras maneiras de praticar a atividade sexual. Pode ser um comportamento perigoso, trazendo prejuízos para a saúde ou segurança das pessoas envolvidas. O sexo oral, a masturbação e o sexo anal já foram considerados práticas parafílicas e hoje são apenas variações normais e aceitáveis do comportamento sexual.

Cada vez mais o sexo adquire uma percepção e uma aceitação maior na sociedade, diminuindo a censura ao prazer e possibilitando mais os comportamentos sexuais, escolhas e condutas. O que antes era inaceitável, diante de mentalidades e desmistificações de conceitos deturpados e arcaicos, assim como próprio conceito de parafilia, em alguns casos, deve ser revisto, sendo considerado apenas como uma expressão do prazer. Desta maneira, o fetiche deve ser entendido como uma fantasia, em que as pessoas potencializam a satisfação sexual e redescobrem o próprio corpo e o do outro, recurso este utilizado por muitos casais que querem apimentar a relação amorosa através de objetos, jogos sexuais, roupas e vestimentas que aumentam as fantasias, entre outras práticas sexuais mais ousadas.

A agorafilia e a agrofilia são desejos da prática do coito em lugares abertos ou ao ar livre, sendo que a agrofilia é o mesmo prazer, só que em campos, bosques e no mato. Já ouviram histórias de pessoas que revelam o desejo em fazer sexo na praia ou numa cachoeira? Um fetiche que se não for uma obsessão é uma maneira diferente de extravasar a fantasia. Já a Amaurofilia refere-se àquelas pessoas que são excitadas por um parceiro sexual que não é capaz de vê-los. A venda nos olhos é um recurso de surpreender o outro e assim, estimular o sexo através da percepção. O sadomasoquismo, o voyerismo e o exibicionismo são práticas parafílicas muito comuns entre as pessoas. O fetiche circunda as relações sexuais em uma sociedade erótica e perversa. Busca-se o prazer a todo custo, muitas vezes, de maneira inconsequente e destrutiva. A escravidão ao orgasmo, que não deveria ser encarado como uma obrigação, mas que as pessoas perseguem afoitas e descontroladas. O orgasmo e o prazer devem acontecer naturalmente e de forma espontânea. Deve ser agradável e libertador. O que observa-se é uma busca enlouquedecora e inconsequente pelo prazer, formando assim, uma sociedade perversiva.

*Breno Rosostolato é psicólogo clínico, terapeuta sexual e professor da Faculdade Santa Marcelina – FASM

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