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Pobres velhos, coitados dos seus familiares

Já não sei mais o que me comove: se é a situação dos nossos idosos, ou de seus familiares que não têm recursos financeiros e nem tempo (em alguns casos nem mesmo paciência) para suprir as necessidades dessa população que, cada vez mais cresce em números e aumenta suas demandas de atenção e cuidados, exigindo dos seus familiares maior dedicação, sem se importar se seus descendentes têm ou não condições de atendê-los

* Sylvia Romano

Este título bem que poderia ser ao contrário: coitados dos velhos, pobres familiares. A ordem do adjetivo não importa, pois a problemática é a mesma.

Venho escrevendo há anos artigos sobre a grave questão da velhice brasileira — a meu ver atualmente o maior problema social que o Brasil começa a enfrentar e que tende a se agravar em curto ou, no máximo, médio espaço de tempo.

Essa difícil situação concentra-se principalmente na classe média dos grandes centros urbanos, já que a classe baixa, infelizmente por falta de cuidados com a saúde, tem uma expectativa de vida menor e a classe alta, com seus recursos financeiros, tem condições de pagar profissionais a peso de ouro ou mesmo colocar os seus idosos em estabelecimentos ou asilos confortáveis. Já os abrigos dirigidos às classes menos favorecidas, na sua grande maioria, não passam de depósitos de velhos e alguns até fariam os campos de concentração da Segunda Guerra Mundial parecerem hotéis 5 estrelas. Essa realidade está atingindo praticamente todas as pessoas com as quais me relaciono e que, brevemente, serão eles próprios (e me incluo nisso) que terão de enfrentar.

Outro dia, li um artigo do ex-ministro Maílson da Nóbrega, no qual ele afirmava que o grande problema brasileiro é o valor gasto com a aposentadoria dos idosos, o que parece lhe irá custar um processo bem-merecido movido pelo Sindicato dos Aposentados do País. Pelo visto, esta é a ideia corrente dos políticos brasileiros, que encaram a velhice como um estorvo para a nação.

Além das mazelas que a idade lhes impinge, os idosos da classe média urbana se deparam com a ausência de alguém que possa olhar por eles. Hoje as famílias estão muito menores do que antigamente. No geral, todos os seus membros trabalham, mesmos os mais velhos, pois com os rendimentos recebidos pelo INSS não conseguem sobreviver. Então quem pode cuidar dos velhos dessas famílias? Não há espaços apropriados para abrigá-los. Carecemos de profissionais especializados (cuidadores) para atendê-los e os poucos que existem a classe média não tem condições de pagar.

Já não sei mais o que me comove: se é a situação dos nossos idosos, ou de seus familiares que não têm recursos financeiros e nem tempo (em alguns casos nem mesmo paciência) para suprir as necessidades dessa população que, cada vez mais cresce em números e aumenta suas demandas de atenção e cuidados, exigindo dos seus familiares maior dedicação, sem se importar se seus descendentes têm ou não condições de atendê-los.

Pobres velhos, coitados dos seus descendentes e dos futuros idosos também!

*Sylvia Romano é advogada trabalhista, responsável pelo Sylvia Romano Consultores Associados, em São Paulo

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